Dra. Márcia Taparelli explica que todo portador tem direito de ser humano
| Da esquerda para a direita: Rodrigo Rosa, Zé Carlos, Clarinha, Michel Brunelli e Anderson Moscatini são alguns dos assistidos pela APAE |
O Dia Mundial da Síndrome de Down foi no último sábado, 21, e merece ser celebrado todos os dias, isso porque muitos acreditam que o portador da Síndrome é diferente dos demais seres humanos. Mas em conversa com as psicólogas da APAE de Valinhos vemos que o panorama é diferente.
“Não é o Síndrome de Down (SD) que não está pronto para ser inserido na sociedade. É a sociedade que não está pronta para recebê-los”, explica a psicóloga Dra. Márcia Hoguiuda Taparelli, que trabalha há 17 anos na APAE.
A também psicóloga Ana Paula Dias Klinke, há oito anos na APAE, conta que os SD são capazes de tudo. “Eles se dão os próprios limites, têm amizades com outros colegas da instituição e se ajudam entre si. Todos crescem e essas amizades são muito importantes”, explica.
Dra. Márcia conta que não existem graus na Síndrome. “A APAE trabalha com a família e mostra que o papel dela é fundamental no desenvolvimento da criança. A nossa primeira luta é pela vida, a Síndrome fica em segundo plano, isso porque muitos apresentam doenças, como a cardiopatia, a dificuldade em ganhar peso, e outras. Cada um tem suas particularidades”, lembra.
Com isso, o papel da APAE é deixar o aluno ao máximo na rede regular, dando estimulação precoce e todo apoio às famílias. “Alguns pais têm medo, mas os preparamos para enfrentar o preconceito, para saber lidar com os SD, pois eles são 100% eles todos os dias, e é preciso entender isso”, finaliza Dra. Márcia.
“Nesta data vamos celebrar todas as conquistas dos portadores. Em primeiro lugar os pais, em segundo as instituições e depois eles, pois sem estes dois primeiros nenhum estaria onde está hoje, tendo o direito de amar, estudar, o direito de ser feliz. Direito de ser humano”, completa.
A família
Inez Borges da Costa, de 35 anos, é mãe de Maria Clara Costa Magalhães, de 10. A filha que frequenta a APAE uma vez por semana para acompanhamento psicológico, e fisioterapeutico, é como qualquer outra criança, mas ainda sofre preconceito na rua.
“Até hoje, em parques, as mães tiram os filhos de perto. No shopping, na escada rolante, vejo as pessoas me chamando e penso ‘será que é comigo?’. E eles chamam porque querem ver a Clarinha, como se ela fosse de outro mundo. Não me incomoda mais, mas isso precisa ser trabalhado na sociedade”, explica.
Clarinha, que desde os 3 anos está na APAE de Valinhos, se desenvolveu graças à família. “Se não fosse a APAE, que me orientou, hoje seria diferente. A Dra. Márcia foi um divisor de águas na minha relação com a Clara, é muito importante esse apoio pra família. Aqui aprendi que não sou psicóloga ou profissional, sou a mãe da Clara e ponto”, finaliza.
A APAE
A APAE de Valinhos trabalha com 25 portadores da Síndrome de Down, sendo que alguns frequentam a entidade todos os dias e outros apenas uma vez por semana para acompanhamento psicológico e fisioterapêutico.
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TEATRO VEM SER
Teatro ajuda no desenvolvimento de assistidos da APAE
Portadores da Síndrome de Down, junto de outros deficientes, fazem parte do Grupo Vem Ser
Acometidos por uma alteração genética, os portadores de Síndrome de Down (SD) são, realmente, pessoais especiais, mas não por suas condições e sim pelas pessoas que são. Na Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), o Grupo de Teatro Vem Ser é um grande exemplo de como o SD pode e deve ser inserido na sociedade.
Michel Brunelli, portador da SD e um dos atores, quando perguntado sobre como o grupo ajuda em sua vida foi categórico: “tudo”. O rapaz , de 33 anos, frequenta o teatro há anos e sabe da importância da expressão em sua evolução e tem certeza da sua capacidade em ser como todos os outros que são considerados “normais”.
E normais mesmo são as atitudes do SD, assim como de todos os outros deficientes que freqüentam a APAE. “Nosso dever é refazer o preconceito que as pessoas têm com todos os deficientes”, explica Deise Kratza, que faz parte do grupo e é amiga de todos os colegas que têm a Síndrome de Down.
Ana Paula Tieko, coordenadora do teatro, explica que essa interação entre eles é necessária e traz bons frutos. “Em uma discussão a respeito do teatro que apresentamos nesta sexta, em homenagem aos portadores da Síndrome, os deficientes e os downs chegaram a uma conclusão: são todos iguais. E isso é interessante, pois eles se ajudam, cada um dentro de suas limitações, desde subir no ônibus, até controlar quando um está mais animado do que o normal”, diz.
E essas atitudes são reflexo da participação no teatro, que traz uma mudança de postura e conduta de todos. “O síndrome tem dificuldade de expressão oral, facial, gestual. Tem retração social que dificulta a convivência e o teatro traz a oportunidade de desenvolver habilidades”, diz Dra. Márcia Hoguiuda Taparelli, psicóloga da APAE.
E o reconhecimento que os alunos recebem é de extrema importância. “É muito bom os alunos serem reconhecidos. Eles freqüentam empresas e são vistos, são incentivados e motivados a participarem”, completa Ana Paula Dias Klinke, também psicóloga.
Participação
Segundo Ana Paula Tieko, os participantes não são escolhidos para o teatro. “Eles começam a fazer parte do grupo por demonstrarem interesse, por terem desejo. Eles se comprometem e têm muita dedicação e responsabilidade com o grupo”, explica.
Ainda de acordo com Ana Paula, o teatro visa contar para a sociedade como é a vida dos deficientes. “Mostrar para o público como eles enxergam a sociedade também é importante. A gente sempre passa o recado 'na lata', sem dar muitas voltas, indo direto ao assunto”, finaliza.
O Grupo Vem Ser tem apoio da Secretaria de Cultura de Valinhos e mais informações podem ser obtidas através do Facebook www.facebook.com/vemser.teatro ou pelo telefone (19) 3303 4500.


