terça-feira, 10 de março de 2015

Maria da Penha diz que mulher tem direito de viver sem violência

Símbolo maior da luta contra a violência doméstica, Maria da Penha diz que para Lei ser consolidada é preciso ações do poder público

Em especial para o Dia da Mulher, a Folha de Valinhos trouxe uma entrevista exclusiva com a mulher símbolo da luta contra a violência doméstica, não só no Brasil, mas também no mundo. Maria da Penha, conhecida por ter seu nome estampado na Lei que defende as mulheres, falou sobre o trabalho de sua instituição, sobre a responsabilidade da causa e outros assuntos referentes à Lei 11340/06, sancionada em 2006, pelo então presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.

Vítima de agressões de seu ex-parceiro, Maria da Penha, no ano de 1983, não precisou denunciar o agressor. “A Secretaria de Segurança descobriu que fui agredida através de um assalto simulado pelo meu ex-marido. Fiquei hospitalizada e seis meses depois a polícia chegou a essa conclusão”, explica.

Entretanto, com uma realidade bem diferente atualmente, a mulher, mesmo amparada pela Lei, ainda tem medo de denunciar a violência. “Eu não tive medo, porque estava com as provas reais no meu processo, tudo muito evidente. Houve uma clareza por parte do promotor, do advogado e do defensor. Não havia nenhuma dúvida de ele ser o autor das tentativas de homicídio”, explica Maria, que ainda comenta que, além do tribunal, nunca mais teve contato com o ex-parceiro.

Neste panorama, Maria faz questão de ressaltar que a mulher agredida precisa ser inteligente. “É preciso inteligência ao usar a lei. Além disso, não é preciso avisar ao agressor de que ele será denunciado, é preciso, sigilosamente, procurar ajuda e se a mulher não souber onde procurar, existe o número 180, que é gratuito e funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia, onde o atendente é capacitado para orientar a todas”, lembra.

Maria da Penha ainda comenta que antes mesmo da denúncia, a mulher pode procurar um centro de referência. “Os centros são locais excepcionais de atendimento, onde a mulher tem serviço psicológico, jurídico e social. Lá, ela vai ser orientada de como sair da situação e, assim, depois, ela decide, dentro de sua consciência, o que fazer da vida dela. E também, existem as casas de abrigo, que mantém em sigilo o local qual a mulher está, para que a mesma possa ter segurança de todas as maneiras”, explica.

Porém, não são todas as cidades que contam com o necessário para a proteção da mulher. “A única coisa que está faltando para a Lei ser consolidada em todo território nacional é os próprios prefeitos se conscientizarem de que é preciso ter um centro de referência, uma Delegacia da Mulher, Juizado e a Casa Abrigo. Mas também a mulher que mora em um município pequeno pode ser transferida para um abrigo em uma cidade maior”, finaliza.

Quanto à responsabilidade de ter seu nome estampado na Lei, Maria da Penha é orgulhosa. “Sei que preciso lutar, alertando que toda mulher tem direito a uma vida sem violência. E toda mulher pode ter essa vida. Exatamente por isso temos uma lei que pune o agressor”, lembra.

A luta
A batalha travada contra o agressor de Maria da Penha durou 19 anos e seis meses. “Quando faltavam seis meses para o crime prescrever, uma ONG internacional (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) teve acesso ao meu livro 'Sobrevivi' e o tramite do caso foi julgado fora do país, sendo o Brasil condenado depois”, isso porque a agressão sobre Maria da Penha foi considerada a primeira violência doméstica no mundo todo.
Mas condenado em 1999 a oito anos de prisão, o ex-marido foi solto dois anos depois. “Eu acho que uma punição dessa não representa punição, mas as leis eram assim na época em que ele foi julgado. Agora também teremos a Lei do Feminicídio (que será sancionada na segunda-feira, 9, e tornará o assassinato de mulheres um crime hediondo), que é muito importante, porque agora teremos mais agilidade nos casos e uma dureza maior nas penas”.

O instituto
O Instituto Maria da Penha (IMP) com sede em Fortaleza e representação em Recife é uma organização não governamental sem fins lucrativos. “Através da educação, levamos para as comunidades informações, mostrando o quanto as mulheres são livres e ensinamos como identificar uma mulher que tenha sido vítima de agressão. Além disso, trabalhamos com universidades e também visitamos escolas”, explica Maria da Penha.

Mais informações sobre a instituição podem ser obtidas no site www.mariadapenha.org.br



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